Plymouth, a origem metodista
Donald Woods Winnicott nasceu em Plymouth, no sudoeste da Inglaterra, em 7 de abril de 1896, o caçula e único filho homem de uma próspera família metodista wesleyana. Tinha duas irmãs mais velhas, Violet e Kathleen, e cresceu numa casa segura e movimentada, com cinco primos do outro lado da rua. O pai, John Frederick Winnicott, foi sócio de uma firma de ferragens, duas vezes prefeito de Plymouth e cavaleiro em 1924, um homem de fé simples e postura digna. Um episódio dos três anos ficaria célebre: provocado pelo pai, Donald esmagou o nariz da boneca das irmãs com um taco de críquete, e o pai, ao consertar o nariz de cera, deu-lhe a primeira lição do que ele um dia chamaria de reparação. Por volta dos treze anos, depois de fraturar a clavícula no campo de esportes, decidiu ser médico, para não depender a vida toda de outros médicos. Incentivado pelo pai a ler a Bíblia e a formar a própria opinião, mais tarde se afastaria da religião da família, guardando dela um senso de responsabilidade social. Estudou como interno na Leys School, em Cambridge.
- 7 de abril de 1896Nasce em Plymouth, Devon
- por volta de 1909Aos treze anos, decide ser médico
- a partir de ~1910Interno na The Leys School, em Cambridge (metodista)
Cambridge, a guerra, a medicina
Em 1914 entrou no Jesus College, em Cambridge, para os estudos pré-clínicos, formando-se em biologia sob a marca das ideias de Darwin. A Primeira Guerra interrompeu a formação: serviu como médico a bordo do contratorpedeiro HMS Lucifer, onde nas horas livres lia os romances de Henry James. A morte de muitos amigos no front deixou uma marca funda, uma tensão entre o alívio de ter sobrevivido e a convicção de que precisava viver também por aqueles que morreram. Concluiu a formação no St Bartholomew’s Hospital, em Londres, onde ele mesmo foi paciente por três meses de um abscesso no pulmão, e qualificou-se em 1920. Foi ali que descobriu a psicanálise, ao topar com um livro do pastor Oskar Pfister sobre Freud, o que o fez ficar em Londres e trocar o plano de ser clínico do interior pela pediatria. A escolha é decisiva para entender a obra: antes de psicanalista, Winnicott foi, a vida toda, um médico de bebês e crianças reais, e sua teoria nunca perderia esse chão concreto do corpo e do cuidado.
- 1914Jesus College, Cambridge (biologia, pré-clínico)
- 1917Serve na Marinha Real, no contratorpedeiro HMS Lucifer
- 1920Qualifica-se em medicina (St Bartholomew’s)
Paddington Green, o casamento, a análise
O ano de 1923 foi decisivo: assumiu como médico no Paddington Green Children’s Hospital, onde ficaria por cerca de quarenta anos, abriu consultório particular na Harley Street, casou-se com a artista Alice Taylor e iniciou uma análise de dez anos com James Strachey. Paddington Green foi seu verdadeiro laboratório: ao longo das décadas atendeu perto de sessenta mil crianças, e dessa clínica sairiam noções como a da mãe suficientemente boa e a do holding, o segurar que sustenta o início da vida. Era tão dedicado que chegava a pagar o transporte de pacientes do hospital para poder investigar com calma o lado psíquico das queixas. Qualificou-se analista de adultos em 1934 e de crianças em 1935 e supervisionou com Melanie Klein, de quem seria ao mesmo tempo herdeiro e crítico: aceitou analisar o filho dela, mas recusou-se a abrir mão da mãe real, a mulher de carne e osso que o kleinismo tendia a dissolver em objeto interno.
- 1923Paddington Green Children’s Hospital (por ~40 anos)
- 7 de julho de 1923Casamento com Alice Taylor, em Frensham
- 1923Início da análise com James Strachey
- 1931Primeiro livro: “Clinical Notes on Disorders of Childhood”
- 1934 / 1935Qualifica-se analista de adultos, depois de crianças
- 1935“A defesa maníaca”, trabalho de admissão na Sociedade
Riviere, a evacuação, as Controvérsias
Em 1936 começou uma segunda análise, com Joan Riviere, e tornou-se membro pleno da Sociedade Britânica de Psicanálise. Até então evitava os casos de delinquência, que exigiam um tempo e um manejo que ele não tinha; a guerra mudou isso. Como consultor do programa de evacuação em Oxfordshire, foi obrigado a cuidar de crianças arrancadas de casa e deprivadas, e conheceu ali a assistente social Clare Britton, com quem trabalharia e a quem se ligaria para o resto da vida. Já em 1939 assinara, com John Bowlby, uma carta alertando para o risco de evacuar crianças menores de cinco anos. Esse trabalho foi a matriz direta de uma de suas ideias mais originais: a da privação e da tendência antissocial, em que o furto ou a birra da criança deprivada são lidos como um sinal de esperança, a busca do que se perdeu. Ao mesmo tempo, as Controversial Discussions dividiram a Sociedade entre os seguidores de Klein e os de Anna Freud, e Winnicott firmou seu lugar no Grupo do Meio, recusando-se a ser discípulo de um lado ou de outro, uma independência que definiria sua voz.

- 1936Segunda análise (Joan Riviere); membro pleno da Sociedade Britânica
- 1939–1945Consultor da evacuação de crianças (Oxfordshire); conhece Clare Britton
- 1941–1945Controversial Discussions (Klein × Anna Freud)
Os grandes textos, a BBC, o segundo casamento
No pós-guerra tornou-se figura pública: desde 1939, e por quase trinta anos, falou no rádio da BBC, muitas vezes no anonimato, apenas como “um médico que cuida de crianças”. Recusava ditar regras às mães; queria falar do que elas já faziam bem por estarem devotadas à tarefa. Foi assim que nasceu, no verão de 1949, numa caminhada com a produtora Isa Benzie, a expressão “mãe dedicada comum”, semente da mãe suficientemente boa. Separou-se de Alice e casou-se com Clare Britton em 1951, um casamento feito de respeito à separação de cada um e de uma intensa capacidade de brincar juntos. Nesse mesmo ano apresentou, aos 55 anos, o conceito que o tornaria mais conhecido: o objeto transicional, o ursinho ou o paninho que ocupa o espaço entre o eu e o mundo. Foi presidente da Sociedade Britânica de Psicanálise de 1956 a 1959, e é desse período o essencial de sua teoria do amadurecimento, da mãe dedicada comum à capacidade de estar só.
- 1939–1968Palestras no rádio da BBC (muitas anônimas)
- verão de 1949Cunha a “mãe dedicada comum”, com a produtora Isa Benzie
- 1951Casamento com Clare Britton; apresenta os objetos transicionais
- 1956–1959Presidente da Sociedade Britânica de Psicanálise
A maturação da teoria, o fim
Nos anos 1960 dedicou-se à maturação de sua teoria e a turnês de conferências, inclusive nos Estados Unidos. Presidiu novamente a Sociedade Britânica de 1965 a 1968 e, em 1968, recebeu a Medalha James Spence, a mais alta honraria da pediatria britânica, e apresentou em Nova York, aos 72 anos, o ensaio “O uso de um objeto”, com sua ideia mais radical: para se tornar real, o objeto precisa sobreviver à destruição do bebê. A recepção fria da plateia nova-iorquina o abalou, e pouco depois teve um infarto grave. Nos últimos anos escreveu notas autobiográficas inacabadas, que pensava intitular “Nada Menos que Tudo”, onde descrevia com precisão de médico o próprio coração e o pulmão falhando, e onde deixou o desejo que resume sua vida: “estar vivo quando morrer”. Winnicott morreu em Londres em 25 de janeiro de 1971, aos 74 anos. No mesmo ano vieram a público “O brincar e a realidade” e “Consultas terapêuticas em psiquiatria infantil”; as obras póstumas seriam editadas por Clare Winnicott, que zelou por seu legado.
- 1965–1968Segundo mandato como presidente da Sociedade Britânica
- 1968Apresenta “O uso de um objeto” (Nova York); Medalha James Spence
- 25 de janeiro de 1971Morre em Londres, aos 74 anos
