winnicottizando
Retrato de Donald Winnicott em 1952
Donald Winnicott, 1952 (detalhe). Foto: Wellcome Collection, CC BY 4.0.

A vida

Donald Winnicott

Plymouth, 7 de abril de 1896 · Londres, 25 de janeiro de 1971

Pediatra e psicanalista inglês, um dos nomes centrais da psicanálise do século XX. Da prática com crianças tirou ideias que mudaram a clínica: o objeto transicional, o falso self, a mãe suficientemente boa.

Linha do tempo referenciada: cada fato remete às fontes ao final, e cada período liga às obras que nasceram ali.Nota de curadoria, Everton Aguiar

“Não existe isso que se chama um bebê.”

D. W. Winnicott
1896–1914

Plymouth, a origem metodista

Donald Woods Winnicott nasceu em Plymouth, no sudoeste da Inglaterra, em 7 de abril de 1896, o caçula e único filho homem de uma próspera família metodista wesleyana. Tinha duas irmãs mais velhas, Violet e Kathleen, e cresceu numa casa segura e movimentada, com cinco primos do outro lado da rua. O pai, John Frederick Winnicott, foi sócio de uma firma de ferragens, duas vezes prefeito de Plymouth e cavaleiro em 1924, um homem de fé simples e postura digna. Um episódio dos três anos ficaria célebre: provocado pelo pai, Donald esmagou o nariz da boneca das irmãs com um taco de críquete, e o pai, ao consertar o nariz de cera, deu-lhe a primeira lição do que ele um dia chamaria de reparação. Aos doze anos, um palavrão aprendido de um amigo levou o pai a mandá-lo para o internato, a Leys School, em Cambridge, onde se destacou nos esportes, na música e no escotismo. Foi lá, depois de fraturar a clavícula no campo de esportes, que decidiu ser médico, para não depender a vida toda de outros médicos, decisão que o pai, que o esperava na firma da família, só aceitou com a intervenção do melhor amigo, Stanley Ede. Incentivado pelo pai a ler a Bíblia e a formar a própria opinião, mais tarde se afastaria da religião da família, guardando dela um senso de responsabilidade social.12

  • 7 de abril de 1896Nasce em Plymouth, Devon
  • por volta de 1909Aos treze anos, decide ser médico
  • a partir de ~1910Interno na The Leys School, em Cambridge (metodista)
1914–1923

Cambridge, a guerra, a medicina

Em 1914 entrou no Jesus College, em Cambridge, para os estudos pré-clínicos, formando-se em biologia sob a marca das ideias de Darwin. A Primeira Guerra interrompeu a formação: serviu como surgeon probationer (médico-estagiário), ainda estudante, a bordo do contratorpedeiro HMS Lucifer, onde nas horas livres lia os romances de Henry James. A morte de muitos amigos no front deixou uma marca funda, uma tensão entre o alívio de ter sobrevivido e a convicção de que precisava viver também por aqueles que morreram. Concluiu a formação no St Bartholomew’s Hospital, em Londres, onde ele mesmo foi paciente por três meses de um abscesso no pulmão, e qualificou-se em 1920. Foi ali que descobriu a psicanálise, ao topar com um livro do pastor Oskar Pfister sobre Freud, o que o fez ficar em Londres e trocar o plano de ser clínico do interior pela pediatria. A escolha é decisiva para entender a obra: antes de psicanalista, Winnicott foi, a vida toda, um médico de bebês e crianças reais, e sua teoria nunca perderia esse chão concreto do corpo e do cuidado.13

  • 1914Jesus College, Cambridge (biologia, pré-clínico)
  • 1917–1919Serve na Marinha Real como surgeon probationer, no HMS Lucifer
  • 1920Qualifica-se em medicina (St Bartholomew’s)
1923–1935

Paddington Green, o casamento, a análise

O ano de 1923 foi decisivo: assumiu como médico no Paddington Green Children’s Hospital, onde ficaria por cerca de quarenta anos, abriu consultório particular na Harley Street, casou-se com a artista Alice Taylor e iniciou uma análise de dez anos com James Strachey. Paddington Green foi seu verdadeiro laboratório: ao longo das décadas atendeu perto de sessenta mil crianças, e dessa clínica sairiam noções como a da mãe suficientemente boa e a do holding, o segurar que sustenta o início da vida. Era tão dedicado que chegava a pagar o transporte de pacientes do hospital para poder investigar com calma o lado psíquico das queixas. Qualificou-se analista de adultos em 1934 e de crianças em 1935 e supervisionou com Melanie Klein, de quem seria ao mesmo tempo herdeiro e crítico: aceitou analisar o filho dela, mas recusou-se a abrir mão da mãe real, a mulher de carne e osso que o kleinismo tendia a dissolver em objeto interno.345

A ‘mãe boa’ e a ‘mãe má’ do jargão kleiniano são objetos internos e nada têm a ver com as mulheres reais.

D. W. Winnicott, “Gesto espontâneo”, Carta 26
  • 1923Paddington Green Children’s Hospital (por ~40 anos)
  • 7 de julho de 1923Casamento com Alice Taylor, em Frensham
  • 1923Início da análise com James Strachey
  • 1931Primeiro livro: “Clinical Notes on Disorders of Childhood”
  • 1934 / 1935Qualifica-se analista de adultos, depois de crianças
  • 1935“A defesa maníaca”, trabalho de admissão na Sociedade
Obras deste período: Da pediatria à psicanálise
1935–1945

Riviere, a evacuação, as Controvérsias

Em 1936 começou uma segunda análise, com Joan Riviere, e tornou-se membro pleno da Sociedade Britânica de Psicanálise. Até então evitava os casos de delinquência, que exigiam um tempo e um manejo que ele não tinha; a guerra mudou isso. Como consultor do programa de evacuação em Oxfordshire, foi obrigado a cuidar de crianças arrancadas de casa e deprivadas, e conheceu ali a assistente social Clare Britton, com quem trabalharia e a quem se ligaria para o resto da vida. Já em 1939 assinara, com John Bowlby, uma carta alertando para o risco de evacuar crianças menores de cinco anos. Esse trabalho foi a matriz direta de uma de suas ideias mais originais: a da privação e da tendência antissocial, em que o furto ou a birra da criança deprivada são lidos como um sinal de esperança, a busca do que se perdeu. Ao mesmo tempo, as Controversial Discussions dividiram a Sociedade entre os seguidores de Klein e os de Anna Freud, e Winnicott firmou seu lugar no Grupo do Meio, recusando-se a ser discípulo de um lado ou de outro, uma independência que definiria sua voz, e que lhe cobraria um preço: Klein e Joan Riviere chegaram a desqualificar suas ideias sobre os estágios mais precoces como fruto de “fatores subjetivos” e de bloqueios neuróticos dele, em vez de discuti-las.35

A tendência antissocial implica esperança.

D. W. Winnicott, “Deprivação e delinquência”, cap. 14
Crianças evacuadas de Bristol chegam a Devon, em 1940. Imperial War Museum (domínio público).
Crianças evacuadas de Bristol chegam a Devon, em 1940. Imperial War Museum (domínio público).
  • 1936Segunda análise (Joan Riviere); membro pleno da Sociedade Britânica
  • 1939–1945Consultor da evacuação de crianças (Oxfordshire); conhece Clare Britton
  • 1941–1945Controversial Discussions (Klein × Anna Freud)
1945–1960

Os grandes textos, a BBC, o segundo casamento

No pós-guerra tornou-se figura pública: entre 1943 e 1962, por quase vinte anos, falou no rádio da BBC, muitas vezes no anonimato, apenas como “um médico que cuida de crianças”. Recusava ditar regras às mães; queria falar do que elas já faziam bem por estarem devotadas à tarefa. Foi assim que nasceu, no verão de 1949, numa caminhada com a produtora Isa Benzie, a expressão “mãe dedicada comum”, semente da mãe suficientemente boa. Separou-se de Alice e casou-se com Clare Britton em 1951, um casamento feito de respeito à separação de cada um e de uma intensa capacidade de brincar juntos. Nesse mesmo ano apresentou, aos 55 anos, o conceito que o tornaria mais conhecido: o objeto transicional, o ursinho ou o paninho que ocupa o espaço entre o eu e o mundo. Foi presidente da Sociedade Britânica de Psicanálise de 1956 a 1959, e é desse período o essencial de sua teoria do amadurecimento, da mãe dedicada comum à capacidade de estar só.56

A base da capacidade de ficar sozinho é um paradoxo: é a experiência de estar sozinho quando mais alguém está presente.

D. W. Winnicott, “Processos de amadurecimento e ambiente facilitador”, cap. 2
  • 1943–1962Palestras no rádio da BBC (muitas anônimas)
  • verão de 1949Cunha a “mãe dedicada comum”, com a produtora Isa Benzie
  • 1951Casamento com Clare Britton; apresenta os objetos transicionais
  • 1956–1959Presidente da Sociedade Britânica de Psicanálise
1960–1971

A maturação da teoria, o fim

Nos anos 1960 dedicou-se à maturação de sua teoria e a turnês de conferências, inclusive nos Estados Unidos. Presidiu novamente a Sociedade Britânica de 1965 a 1968 e, em 1968, recebeu a Medalha James Spence, a mais alta honraria da pediatria britânica, e apresentou em Nova York, aos 72 anos, o ensaio “O uso de um objeto”, com sua ideia mais radical: para se tornar real, o objeto precisa sobreviver à destruição do bebê. Essa mesma ideia destravou um impasse antigo: “Natureza humana”, o livro que ele revisava desde 1954, ficara inédito em vida por uma contradição teórica que só “o uso de um objeto” resolveu. A recepção fria da plateia nova-iorquina o abalou, e pouco depois teve um infarto grave. Nos últimos anos escreveu notas autobiográficas inacabadas, que pensava intitular “Nada Menos que Tudo”, onde descrevia com precisão de médico o próprio coração e o pulmão falhando, e onde deixou o desejo que resume sua vida: “estar vivo quando morrer”. Deixou cerca de oitenta artigos inéditos e costumava dizer que sua teoria “cresceu comigo” ao longo das décadas. Winnicott morreu em Londres em 25 de janeiro de 1971, aos 74 anos. No mesmo ano vieram a público “O brincar e a realidade” e “Consultas terapêuticas em psiquiatria infantil”; as obras póstumas seriam editadas por Clare Winnicott, que zelou por seu legado.156

O objeto sempre é destruído. Essa destruição se torna o pano de fundo inconsciente do amor pelo objeto real.

D. W. Winnicott, “O brincar e a realidade”, cap. 6
  • 1965–1968Segundo mandato como presidente da Sociedade Britânica
  • 1968Apresenta “O uso de um objeto” (Nova York); Medalha James Spence
  • 25 de janeiro de 1971Morre em Londres, aos 74 anos

O homem e o método

Quem lidava com Winnicott encontrava alguém ‘inexoravelmente ele mesmo’, capaz de ser diferente com cada pessoa sem nunca impor a própria presença. Gostava de Bach e Beethoven e também dos Beatles e, para pensar, recorria sem cerimônia à cultura popular: o Ursinho Pooh, o Snoopy. Na clínica, uma aparência de espontaneidade e quase desordem escondia um controle rigoroso do enquadre e uma teoria densa por baixo; foi ele quem releu a velha ideia de resistência como um ‘período de hesitação’ do paciente, um tatear necessário para que o gesto criativo pudesse surgir.

E havia o rabisco. O jogo do rabisco, em que desenhava com a criança e pedia que ela completasse a linha, era sua maneira de fazer o primeiro contato. Nas horas privadas, rabiscava todo dia, coisas cômicas ou perturbadoras, que mostrava à mulher. O mesmo traço solto que abria a porta da criança abria a dele.15

Recursos oficiais

Instituições e arquivos oficiais que cuidam da obra e do legado de Winnicott, para quem quiser ir à fonte.

Notas e fontes

  1. Clare Winnicott, “D.W.W.: Uma Reflexão”, em Explorações Psicanalíticas (Artmed, 1994).
  2. Who was Who in Old Plymouth e Dictionary of Methodism (a família e o pai).
  3. F. Robert Rodman, introdução a Gesto espontâneo (Ubu).
  4. M. Masud R. Khan, introdução a Da pediatria à psicanálise (Ubu).
  5. Edições Ubu das obras de Winnicott: seção “Sobre o autor”, introduções e notas.
  6. The Winnicott Trust, Royal College of Paediatrics e British Psychoanalytical Society.

Retrato: Wellcome Collection, CC BY 4.0 (recortado). Foto da evacuação: Imperial War Museum, domínio público. A Wikipedia serviu de mapa para chegar às fontes, sempre conferidas na origem.